Julio Vicente Lombardi & Hélcio Luis de Almeida Marques
 

 

 

CRIAÇÃO DE CAMARÕES MARINHOS EM GAIOLAS FLUTUANTES: AUTOSUSTENTABILIDADE ATRAVÉS DA INTEGRAÇÃO COM O CULTIVO DE MACROALGAS E MEXILHÕES

Autores
Dr. JULIO VICENTE LOMBARDI email
Dr. HÉLCIO LUIS DE ALMEIDA MARQUES email

 

Introdução
 

A criação de camarões marinhos no Brasil tem se expandido rapidamente nos últimos 20 anos. O país possui aproximadamente 8.000 km de costa oceânica tropical, o que corresponde à metade da extensão costeira da América do Sul. Contudo, não se pode afirmar que toda esta área seja apropriada para a criação de camarões.

 A construção de viveiros de criação têm sido considerada impactante ao meio ambiente, uma vez que estes são tradicionalmente alocados em áreas adjacentes ao ecossistema manguezal, principalmente nos estados da região nordeste do país. Estas incursões, muitas vezes, resulta na destruição de grandes áreas deste ecossistema. Isto tem criado uma certa preocupação por parte dos órgãos ambientais. Consequentemente, o crescimento desta indústria camaroneira no Brasil tem sido limitado pelas leis ambientais, que exerce um rígido controle sobre a ocupação de solos nas zonas costeiras. Além disto, a exploração imobiliária de terras litorâneas tem contribuído para sua alta valorização econômica, o que dificulta ainda mais a aquisição de áreas para instalação de projetos de carcinicultura. Este aspecto é bastante relevante em toda a costa Sul-Sudeste do país, principalmente no Estado de São Paulo. O cultivo de camarões em gaiolas tem sido estudado, nestes últimos anos, como uma alternativa para reduzir os impactos social e ambiental da indústria camaroneira. Esta tecnologia, contudo, parece ser viável apenas para produções comerciais de pequena escala. O Centro de Pesquisas em Aquicultura (CPAqui) do Instituto de Pesca em São Paulo tem desenvolvido algumas pesquisas em Ubatuba (Litoral Norte do Estado), cujo principal objetivo é de produzir uma tecnologia de criação de camarões marinhos em gaiolas flutuantes, visando à sua utilização por parte das comunidades de pescadores e de maricultores. Esta atividade poderá incrementar o faturamento destes pequenos investidores, especialmente durante os meses em que a captura de camarões é proibida por lei para a proteção dos estoques naturais (época do “defeso”).

 

Estrutura física (gaiolas)

 

As estruturas flutuantes para sustentação das gaiolas são geralmente construídas com tubos de PVC (fig. 1), enquanto que as gaiolas são fabricadas em panagem de fio de poliéster revestido com PVC. A malhagem varia de 2 mm na fase de berçário a 5 mm na fase de engorda. Gaiolas experimentais, contendo área de fundo de 1 a 2 m2, têm sido adotadas para a condução dos estudos que o CPAqui desenvolve em Ubatuba-SP (fig. 2), muito embora as dimensões de 3,00 x 3,00 x 1,40m (comprimento x largura x altura) sejam mais utilizadas em projetos de produção comercial (fig.3).

Fig.1- Armações de tubos de PVC para instalação de gaiolas flutuantes.

 

Fig.2- Gaiolas pequenas (1 x 1m) e (2 x 1m) utilizadas em projetos experimentais de criação de camarões.

 

Fig.3- Gaiolas grandes (3 x 3m) utilizadas em projetos de produção comercial de camarões. 

 

Descrição do sistema 
 

Um sistema trifásico de produção inclui a seguinte disposição: Na primeira fase (berçário primário) as pós-larvas (PL) com 12 a 15 dias após a metamorfose são adquiridas de laboratórios comerciais e estocadas durante 15 dias em uma densidade de 10 PL / litro. Na fase de berçário secundário, as pós-larvas, já  adaptadas na fase anterior, são mantidas por 30 a 45 dias em uma densidade de 500 PL / m2. Na fase de engorda, os juvenis são mantidos por 100 a 120 dias em densidade de 150 camarões / m2. As gaiolas devem ser removidas da água ao final de cada fase, a fim de se promover a raspagem das incrustações que porventura venham a ocorrer na panagem durante o período em estão submersas. Ocasionalmente, esta operação de raspagem pode ser necessária ainda durante o período em que as gaiolas estiverem sendo utilizadas. Este procedimento colabora para a prevenir a oclusão das malhas e garante uma boa circulação de água. Todavia, neste último caso, as gaiolas não são removidas da água, uma vez que apenas a raspagem de duas pequenas áreas nas paredes laterais já satisfaz ao propósito deste manejo. 

Esta tecnologia teve início com a utilização de uma espécie exótica de camarão: o camarão branco do Pacífico Litopenaeus vannamei. As produtividades registradas para este sistema situam-se ao redor de 25 a 30 toneladas de camarões/ha/ano, cujos valores superam em 10 vezes as produtividades observadas no sistema tradicional de produção, que é praticado em viveiros escavados na terra. Por outro lado, sabe-se que a técnica de criação em gaiolas é mais viável para produções em pequenas escalas comerciais, proporcionando menores volumes totais de produção quando comparado ao sistema tradicional. Desta forma, algumas estratégias de marketing necessitam ser melhor estudadas para proporcionar um tratamento diferenciado ao produto criado em gaiolas, podendo incrementar o seu preço de venda em relação àqueles provenientes da pesca extrativa e do cultivo tradicional. Caso contrário, a competição com a produção em larga escala pode tornar esta atividade economicamente inviável.

 

Estratégias de marketing
 

A venda de camarões vivos a restaurantes especializados e hotéis é uma estratégia efetiva que deve garantir um melhor rendimento econômico para os camarões criados em gaiolas. O preço de venda do tradicional camarão abatido (resfriado ou congelado) situa-se na faixa de R$ 25,00 a R$ 50,00 /Kg. Enquanto que o camarão fresco, proveniente da criação em gaiolas, pode superar em pelo menos 50% este valor. Deve-se salientar que a criação em gaiolas é o único sistema que consegue garantir a produção de camarões vivos ou frescos com excelente padrão sanitário. 

A popularidade da pesca esportiva e recreacional vem aumentando consideravelmente nos últimos anos. A criação de camarões em gaiolas pode ser ainda mais lucrativa, a partir da crescente demanda do mercado de iscas vivas, principalmente para atender à pesca esportiva de robalo, que vem sendo bastante praticada no litoral paulista, onde o preço do camarão vivo varia de R$ 0,60 a R$ 1,00 / unidade. No entanto, a legislação ambiental proíbe a comercialização de espécies exóticas para esta finalidade. 

Por outro lado, o camarão rosa (Farfantepenaeus paulensis - fig. 4) é uma espécie nativa que vem sendo estudada para atender a este propósito, pois não possui qualquer impedimento legal quanto à sua comercialização como isca viva. A equipe de pesquisadores do CPAqui vem recentemente estudando a criação desta espécie em gaiolas, objetivando maximizar a sua produção e possibilitar a sua oferta no mercado como produto vivo.

 

Fig.4- Camarão rosa Farfantepenaeus paulensis (5 meses de cultivo).

 

Policultivo com macroalgas

 

O cultivo de macroalgas dentro das gaiolas de criação de camarões pode incrementar o retorno econômico da produção de ambos os organismos. A introdução de macroalgas no sistema funciona como uma adição de substrato natural, provendo abrigo e sombreamento aos camarões. Além disto, este substrato colabora para o incremento da fonte de alimento natural, uma vez que constitui um excelente ambiente para colonização de outros organismos, que geralmente fazem parte da dieta natural dos camarões( pequenos crustáceos, moluscos, vermes poliquetos, etc). Outra vantagem a ser apontada reside no fato das gaiolas servirem de proteção às algas, seja evitando a herbivoria causada por peixes e tartarugas, seja através da contenção de ramos que ocasionalmente se fragmentam e se dispersam no mar.

Kappaphycus alvarezii é uma espécie de macroalga proveniente das Filipinas e vem sendo estudada pela equipe de pesquisadores do Instituto de Pesca,  apresentando bom potencial para a integração do seu cultivo com camarões. Essa macroalga possui um excelente potencial econômico. Dela se extrai a carragenana, substância largamente utilizada em várias indústrias, principalmente na alimentícia, devido às suas propriedades de estabilização, gelatinização e emulsificação. Além disto, o consumo direto de algas, na forma fresca ou processada, tem aumentado substancialmente na culinária brasileira. As primeiras tentativas do cultivo desta alga em sistema integrado às gaiolas de criação de camarões (fig. 5) demonstraram um potencial de produção de, aproximadamente, 200 toneladas/ ha / ano. Deve-se salientar, que existem outras vantagens na introdução de algas nas gaiolas de criação de camarões. Elas podem ser utilizadas como um excelente filtro de absorção orgânica. Esta integração, portanto, pode reduzir o impacto ambiental causado pela poluição gerada no sistema, uma vez que as macroalgas possuem alta capacidade de remover o excesso de nutrientes que porventura seja produzido durante a criação de camarões, ou seja, as algas absorvem os elementos nitrogenados provenientes da excreção dos camarões e dos restos de alimento.

 

Fig.5- Disposição da macroalga K. alvarezii dentro das gaiolas de criação de camarões (momento do plantio).

 

Integração com mexilhões
 

A mitilicultura é o setor mais desenvolvido da maricultura ao longo da costa litorânea do Sudeste brasileiro. Esta localização, especialmente a região que compreende a cidade de Ubatuba, possui condições climáticas e ambientais altamente favoráveis para o desenvolvimento da atividade, onde as comunidades de pescadores já vêm atuando tradicionalmente por mais mais de 10 anos no cultivo do mexilhão Perna perna. A técnica de cultivo inicia-se a partir da captura de sementes feita diretamente nos bancos naturais (costões rochosos) ou através de coletores artificiais. Em seguida, as sementes são fixadas em redes tubulares dispostas ao longo de cordas sustentadas por flutuadores - sistema de “long lines” (figs. 6 and 7). 

 

Fig.6- Vista superficial das bóias de sustentação de "long lines" para o cultivo de mexilhões.

Fig.7- Colheita de mexilhões - 6 meses após a fixação de sementes nas redes tubulares.

 

A alimentação é o quesito mais oneroso dentro dos custos operacionais da carcinicultura.  Isto se deve aos altos gastos com a aquisição de ração, que é essencial para obtenção de bons resultados de crescimento e sobrevivência dos camarões. A redução deste custo constitui um grande desafio aos criadores de camarões. O CPAqui vem desenvolvendo outro estudo sobre o manejo alimentar de camarões em gaiolas, que consiste na substituição (parcial ou total) da ração comercial por carne fresca de mexilhão.  Este tipo de integração pode reduzir substancialmente os custos operacionais da produção de camarão. Em outras palavras, produzir mexilhões é muito mais econômico que comprar ração. Outra vantagem desta integração reside na possibilidade da utilização das estruturas das gaiolas flutuantes como coletores artificiais de sementes de mexilhões, uma vez que as gaiolas oferecem um excelente substrato para o assentamento das sementes (fig. 8), bastando apenas o seu recolhimento para  fixação nas cordas de cultivo.

 

 

Fig.8- Assentamento natural de sementes de mexilhão nas paredes laterais externas das gaiolas de camarão.

Esta alternativa pode minimizar o impacto ambiental da extração de sementes nos bancos naturais. De forma semelhante ao manejo integrado com as macroalgas, os mexilhões também podem ser utilizados como depuradores ambientais, uma vez que são excelentes filtradores de partículas em suspensão. Desta forma, a disposição de “long lines” ao redor da zona perimetral das gaiolas flutuantes pode ser uma excelente estratégia para conter a exportação de matéria orgânica proveniente do sistema. Os mexilhões podem filtrar os resíduos da alimentação dos camarões, o que deverá, ao mesmo tempo, auxiliar no controle da poluição orgânica e colaborar para o crescimento dos moluscos.

 

Considerações Finais 
 

Praticamente todas as iniciativas no tocante à criação de camarões em gaiolas foram, até então, realizadas em caráter experimental ou em pequena e média escalas de produção. Todas as operações comerciais vêm sendo conduzidas em sistema de monocultivo, ou seja, apenas para a produção de camarões, sem qualquer integração com outros organismos.

Embora os aspectos econômicos do cultivo integrado em gaiolas flutuantes sejam apenas especulativos, este tipo de operação parece ser ideal para a exploração da interação entre os organismos cultivados em termos de incrementar quantitativamente a produção por área de cultivo, assim como minimizar gastos e perdas, o que certamente aumenta o retorno econômico da atividade. Ao mesmo tempo, o conceito de sustentabilidade ambiental do sistema garante a redução de impacto e torna possível a sua direta instalação no mar.

 

Notas e Referências
 

1) Os autores são pesquisadores científicos do CPAqui - Centro de Pesquisas em Aquicultura do Instituto de Pesca – SAA – S. Paulo. End: Av. Francisco Matarazzo, 455 - São Paulo – SP, CEP: 05001-900.